SIOUX

“Óh! Grande Espírito cuja voz ouço nos ventos,
cujo hálito, da vida ao mundo,
ouça-me sou pequeno e fraco,
preciso de tua força e de tua sabedoria,
faça com que meus pés andem em beleza,
e que minhas mãos protejam as coisas que fizestes.
Faça-me sábio para que eu possa aprender as lições
que escondestes em cada folha e em cada pedra.
Faça-me forte, não para ser superior aos meus
irmãos,
mas para que eu possa enfrentar meu maior inimigo,
“Eu Mesmo”.
Faças com que eu esteja sempre pronto a te
encontrar, olhando nos olhos.
Para que quando a minha vida se for, assim como o
sol se põem,
meu espírito não tenha vergonha de fazê-lo.”
Oração Sioux

 


A MAGIA DE WAKAN TANKA

 

A palavra Sioux é o termo coletivo para designar sete grupos tribais cujos quais se organizavam em três principais grupos políticos, os Tetons, os Yonktons e os Sontus. O povo que veio a ser conhecidos como “Sioux” eram as pessoas que estavam, no século XVI, assentadas na nascente do rio Mississippi, nas regiões de Planície dos Estados Unidos. Denominavam a si mesmos Lakota ou Dakota, que significa “aliados”, “serpente” ou “inimigo”.
De acordo à Bernard Dubant, o “indio” é extremamente culto por ser descendente de culturas imemoriais, apontantando para Atlântida como berço civilizatório. A própria palavra indio designa uma origem sumamente longinqua. “O indio é o homem vermelho(sa wicasa), que também se atribui ao nome de Adão (o vermelho). Os toltecas dizem proceder de Aztlán, e os sioux, de um ilha voltada para o sol nascente, onde todas as tribos eram uma- afirma Dubant em sua obra “Cavalo Doido”.
Mitologicamente sua tradição surgiu de uma grande inundação que se deu nas grandes pradarias do oeste. Muitas tribus chegaram às colinas da pradaria escapando da subida das águas. A água continuou subindo até que inundou todo o mundo. “A carne e o sangue se converteram em pedra. A terra sioux é a carne e o sangue de seus antepassados.” Enquanto as pessoas se afogavam, uma águia calva (ou de cabeça branca) se aproximou voando e uma bela mulher se agarrou à suas garras, a levou a uma grande árvore, onde as águas não alcançavam. Nessa árvore a mulher deu luz à gêmeos. Os gêmeos, guiados por seu pai-águia, fundaram uma tribu forte e valorosa.
Sua cultura descende de uma figura santa conhecida como a Mulher Filhote de Búfalo Branco. Ela é uma heroína cultural. Foi ela quem trouxe aos sioux o cachimbo sagrado. Hoje, o cachimbo do Filhote de Búfalo Branco está em um lugar sagrado (Green Grass) em uma Reserva Indígena do Rio Cheyenne na Dakota do Sul mantido por um homem que é conhecido como o Guardador do Cachimbo do Novilho de Búfalo Branco, Arvol Looking Horse. Ele diz que está escrito que na próxima vez em que houver caos e disparidade, a Mulher Filhote Búfalo Branco retornará.
Fonte de profundo conhecimento espiritual, a Mulher Filhote de Búfalo Branco é uma poderosa mensageira de “Wakan-Tanka”, o Grande Espírito ou Grande Mistério. Ela mesma é chamada de “wakan”, que pode significar “sagrada” e “poderosa”, além de “antiga”, “velha” e “resistente”. Esta personagem lendária tem a beleza da juventude e a sabedoria da eternidade.
Conta a tradição que essa deusa exigiu para a sua aparição, a construção de uma grande tenda no centro da nação. Entrou na tenda, muito bonita, cantando, e enquanto cantava, de sua boca saía uma nuvem branca de “cheiro bom”. Então ela deu algo ao chefe: um cachimbo.
“Olhem”-disse ela- “Com isto vocês se multiplicarão e serão uma boa nação. Nada que não seja bom sairá disto. Somente as mãos dos bons deverão cuidar dele e os maus não poderão sequer olhar para ele.”
A mulher colocou uma lasca de búfalo seco no fogo e acendeu o cachimbo com ela. Este era peta-owihankeshni, o fogo sem fim, a chama do ideal a ser passada de geração a geração. E então falou:
“Todo amanhecer é um acontecimento sagrado, e todo dia é sagrado, pois a luz vem de seu Pai “Wakan-Tanka”; e também vocês devem sempre se lembrar de que os de duas pernas(seres humanos) e todos os outros povos que habitam esta terra são sagrados e devem ser tratados como tais”.
Ela ensinou também, a eles as sete cerimônias sagradas. Uma delas foi a Tenda do Suor, ou Cerimônia da Purificação. A outra foi a Cerimônia de Nomeação, dando nomes às crianças. A terceira foi a Cerimônia de cura. A quarta foi a criação de parentesco ou Cerimônia de adoção. A quinta foi a Cerimônia de casamento. A sexta foi a Busca de Visão e a sétima foi a Cerimônia da Dança do Sol, a Cerimônia do povo de todas as nações.
“Mulher Filhote de Búfalo Branco” é uma figura que dá vida a seu povo e está identificada com o búfalo porque representa toda a criação. Este é o animal mais importante para este povo, pois dá-lhes comida, roupas e até mesmo casas, que são feitas de peles curtidas. Para um índio sioux o búfalo contém todas estas coisas em si e, por muitas outras razões, ele é um símbolo natural do universo, onde representa a totalidade e unidade em todas as formas manifestas.
Os sioux viam o Universo como essencialmente incompreensível. A essa incompreensibilidade do universo denominaram “Wakan” que em conjunto com sua força criadora se totaliza no denominado “Wakan Tanka” que incorpora a soma do poder personificado que traz todas as coisas à existência.
Para os sioux tudo tem o seu espírito, mas tudo compartilha da mesma essência que é Wakan Tanka. Essa visão das coisas deixa claro a ligação existente em toda a manifestação, o que leva o Sioux a buscar uma integração cada vez maior de si mesmo com a natureza e o universo, gerando um espírito de unidade que se refletia primeiramente na sociedade e em maior escala o levava de encontro com Wakan Tanka.
Diziam que o universo foi criado por uma canção e que somente nas Montanhas Rochosas essa canção pode ser encontrada completa, por isso se fixavam a sua base e as consideravam sagradas como sendo o “coração de tudo o que existe”.
Wakan Tanka é o aspecto mágico dos sioux que quando incorporado pelo coração do guerreiro, este se transforma em ponte entre o céu e a terra, trazendo magia e bondade para todos os seres vivos. Diversos índios idosos, consultados sobre o significado da palavra wakan, deram a seguinte resposta : “Um homem comum possui os meios naturais de fazer as coisas. Eventualmente surge um homem que tem o dom de fazer coisas extraordinárias, e esse homem é chamado Wakan.”

A RELAÇÃO COM A NATUREZA
Os sioux não tem nenhum termo para designar a “religião” nem a “arte”, posto que a vida natural é essencialmente artística e religiosa. O termo que corresponde mais aproximadamente à religião é wocekiye (prece, oração). Para um índio sioux, a natureza é a face de Deus. Diziam que respeitar todos os seres era uma forma de respeitar a si mesmo. A mãe terra provê tudo, por isso, deve ser objeto de devoção e amor.
Criticavam o fato do homem branco dormir em camas sendo que o solo, por natureza é tranqüilizante, revigorador, purificador e medicinal. Por isso é que os velhos índios ainda se sentam diretamente na terra, fonte de suas forças vitais. Para eles, sentar-se ou deitar-se no chão permite pensar com mais profundidade e sentir com mais acuidade; podem penetrar nos mistérios da vida e descobrir o parentesco com outras formas de vida ao seu redor.
De acordo à Chefe Falcão Voador, um índio sioux oglala, era sobrinho de Touro Sentado. “Nossos tipis (tendas) são muito melhores de se viver; sempre limpas, quentes no inverno, frescas no verão, fáceis de transportar. O homem branco constrói casas imensas, parecidas com grandes gaiolas; custam muito dinheiro, vedam a entrada do sol e não podem se mover; estão sempre doentes. Os índios e os animais sabem como viver melhor do que o homem branco; ninguém pode ter boa saúde se não dispõe o tempo todo de sol, ar fresco e água pura. Se o Grande Espírito quisesse que os homens permanecessem num único lugar, teria feito o mundo imóvel. Mas Ele quer a mudança, de modo que os pássaros e os animais possam se mover e sempre encontrar grama verde e frutos maduros, sol para trabalhar e brincar, noite para descansar; verão para as flores se abrirem e inverno para dormirem; sempre a mudança; tudo com algum benefício; nada por nada.
O homem branco não obedece ao Grande Espírito; por isso os índios jamais se entenderão com ele.”
Diziam que seus corpos estavam acostumados à constante exposição ao sol, ao ar e à chuva, e a função dos poros da pele – na verdade um sistema respiratório altamente desenvolvido – era bloqueada pelas calças de material pesado e absorvente.
Acreditavam em pedras sagradas, grandes pedras ou rochas no campo eram ‘objetos de devoção’ entre os índios sioux. Stephen Riggs observou que ‘grandes blocos de pedra arredondada eram escolhidos e adornados com tinta verde e vermelha, onde os Dakota pudessem rezar e oferecer seus sacrifícios. Para eles, falar dessas pedras é “conversa sagrada”.
Consideravam que o Vento é o arauto de todas as lições, pois os espíritos sempre chegam junto com o Vento. Se ele vier do Sul, estará lhe oferecendo um ensinamento sobre fé, confiança, inocência e humildade. Se o vento soprar do Oeste, estará oferecendo lições de conhecimento interno. Quando o Vento sopra do Norte, ele lhe aconselha a ser grato e reconhecer a sabedoria que está a seu alcance. O Vento Leste traz progresso, novas idéias e liberdade que é obtida através da iluminação. O Vento Leste lhe ajudará a afastar as dúvidas e pensamentos sombrios, abrindo a Porta Dourada que conduz a novos níveis de entendimento.
Podemos ver a representação disso na oração sioux que segue:

“Ó nosso Pai Céu, ouça-nos e faça-nos fortes.
Ó nossa Mãe Terra, ouça-nos e dê-nos apoio.
Ó Espírito do Leste, envie-nos sua sabedoria,
Ó Espírito do Sul, que possamos trilhar seu caminho de vida,
Ó Espírito do Oeste, que estejamos preparados para a longa jornada,
Ó Espírito do Norte, limpe-nos com seus ventos purificadores”.

Os Índios Sioux da América do Norte sempre utilizaram as formas da natureza como referência para verdades inerentes ao ser humano, a utilização do sistema de analogias com a pedagogia baseada no exemplo formatou uma das mais ricas culturas indígenas que fascinam as pessoas até os dias de hoje.
Uma lenda Sioux diz que um guerreiro e uma bela mulher se aproximaram de um feiticieiro e pediram um feitiço, um conselho, um talisã, qualquer coisa que assegurasse o amor que um nutria pelo outro e queriam se casar mantendo esse amor mesmo para além da morte. O feiticeiro solicitou para o guerreiro uma águia que poderia encontrar num montanha específica e para a bela dama um falcão que deveria trazir de uma outra montanha. Deveriam trazer a águia e o falcão vivos até o terceiro dia da lua cheia.
E agora o que faremos? - perguntou o jovem - as matamos e depois bebemos a honra de seu sangue?
- Ou cozinhamos e depois comemos o valor da sua carne? - propôs a jovem.
- Não! - disse o feiticeiro, apanhem as aves, e amarrem-nas entre si pelas patas com essas fitas de couro… quando as tiverem amarradas, soltem-nas, para que voem livres…
O guerreiro e a jovem fizeram o que lhes foi ordenado, e soltaram os pássaros… a águia e o falcão, tentaram voar mas apenas conseguiram saltar pelo terreno. Minutos depois, irritadas pela incapacidade do vôo, as aves arremessavam-se entre si, bicando-se até se machucar.
E o velho disse: Jamais esqueçam o que estão vendo… este é o meu conselho. Vocês são como a águia e o falcão… se estiverem amarrados um ao outro, ainda que por amor, não só viverão arrastando-se, como também, cedo ou tarde, começarão a machucar-se um ao outro…
Se quiserem que o amor entre vocês perdure…
“Voem juntos… mas jamais amarrados”.

OS CINCO ELEMENTOS E OS DEZESSEIS ASPECTOS

Os cinco elementos foi amplamente demonstrado por inúmeras tradições. Pelos astecas através dos cinco sois e pelos mulçulmanos simbolizada pela mão de fátima. Vemos também representado pelo conhecimento dos cinco anéis da tradição japonesa e em roma através dos manípulos. A tradição sioux representava o conhecimento dos cinco elementos através do símbolo do Manitú, onde carimbavam o dorso do cavalo com o desenho de uma mão. Diziam que somente poderiam falar sobre quatro elementos, pois o quinto, por ser sagrado, era de caráter interno e só era compreendido por aquele que tinha obtido a “ visão”. Representavam quatro dos elementos através de quatro cores( vermelho, branco, preto e amarelo), quatro direções, quatro aspectos da personalidade e dos quatro ventos que vinham dos quatro cantos do universo e traziam inserindo dentro de si quatro tipos de poder, que naciam de um poder único.
Outro símbolo usado era o da uma cruz inscrita num círculo, onde o centro representa o quinto elemento, o elemento sagrado que nunca deve ser profanado. Os quatro elementos era de domínio público e o quinto de domínio dos chamans. O h-men(“chaman” na lingua quechua) “ é o que conhece os segredos de seus antepassados”. É o iniciado nos mistérios.
Do quinto elemento nasciam os quatro elementos, e dos quatro nasciam outros quatro, totalizando dezesseis expressões do quinto elemento.
O quinto elemento espiritual, Wakan Tanka, o Grande Poder, está representado, portanto, por dezesseis aspectos. Os chamans o chamam Tobtob Kin, o quatro vezes quatro, conhecido em outras tradições como as dezesseis pétalas.
Os “wakan superiores” (wakan akanta):
O primeiro é o Deus superior, Wi ( o sol), o chefe dos deuses; Skan (o céu), o espírito poderoso; Maka (a Terra), o ancestral de todo o mundo e provedor de tudo; e Inyan (a pedra), a matéria prima de todas as coisas.
Em segundo nas categorias da hierarquia estão os deuses associados aos superiores que é Hanwi (a lua), criado por Wi para ser sua companheira; Tate (o vento), criado por Skan para ser sua companheira; Wohpe (estrela poente), criado por Maka para ser sua companheira; e Wakinyan (o alado), o ser trovão, criado por Inyan para ser seu companheiro.
Essas são as duas categorias wakan kin, as “sagradas” ou “ poderes”.
As duas categorias inferiores são as dos wakan kuya, ou “ wakan menores” e a dos wakanlapi “os semelhantes ao wakan
A terceira categoria: Tatanka (o deus Búfalo), o padrão das cerimônias, a saúde, e a provisão; Hu Nonp (o deus urso), o patrono da sabedoria; Tatetobi ( os quatro ventos), o que dá vida e tempo; e Yumni (o redemoinho de vento), o deus da chance, dos jogos e do amor.
A quarta categoria: Nagi ( o espírito); Niya ( o fantasma); Sicun (potência, o poder que reside nas coisas animadas e inanimadas); e Nagila (o ser imaterial das coisas irracionais).
Para um sioux o universo é mágico e natural. Não falam de Deus propriamente, consideram que falar de Deus seria uma forma de profanar a divindade. Falam do poder de Deus manifestado por Wakan Tanka, e esse poder por sua vez, se manifestando em quatro elementos e finalmente se desdobrando em dezesseis expressões, conformando o que chamamos de universo visível. O verdadeiro poder, permanece invisível e oculto, no entanto, é o que gera, nutre e põe em marcha todas as forças universais.

A BUSCA DA VISÃO ( HANBLECEYA)
Dentro do clã guerreiro o aspecto místico era sempre levado em conta e direcionava os passos da tribo, todo guerreiro deveria em sua trajetória de vida alcançar a sua visão, ponto em que entendia e participava dos aspectos da natureza. A busca da visão era a meta de todo guerreiro .
A Busca da Visão é um dos instrumentos mais antigos usados pelo povo das Tribos ao buscar a sua direção na vida. A visão ( hanble) determinava a vocação do guerreiro sioux. Se esses dons forem usados de forma adequada, podem permitir a obtenção de um potencial de crescimento que acompanhará o discípulo pelo resto da vida.
Diferente aos povos “ocidentais” atuais, onde impera a democracia e a igualdade, para os sioux a visão determinava seu destino e vocação como caminho de expressão da alma.
“Não é com os olhos com que se vê”- Afirmava Carlos Casteneda. O princípio da visão está no descortinamento do mundo através da energia do coração, fundindo no espírito do guerreiro a verdade da unidade.
A visão não é algo que pode ser descrito intelectualmente. Quando vivido pelo guerreiro, as fronteiras de vida e morte se diluem. Comenta Héhaka Sapa, um importante wicasa wakan( homem de poder): “Quando me ocorre, vejo mais do que posso explicar e compreendo mais do que vejo, porque vejo de forma sagrada(wakan) as formas de todas as coisas no espírito e a forma de todas as formas tal como devem viver juntas como um ser” – “A razão mais importante na busca da visão, é sem dúvida, é o fato de dar-nos conta de nossa unidade com todas as coisas.”
O conceito da unidade, ainda que só fosse possível vivê-lo plenamente uma vez obtida a “ visão”, era culturalmente transmitida de geração a geração através de muitas idéias, por exemplo, para os sioux a palavra povo, oyate, não só designa os diferentes povos humanos, mas também, todos os reinos da natureza, designando a unidade de todas as coisa
A orientação do shaman era fundamental. O shaman era quem detinha o conhecimento dos dois lados da natureza e por isso podia guiar o guerreiro tanto de um lado quanto do outro.
Sempre conduzido por um shaman, o indivíduo que Busca a Visão é enviado a um local de poder. O objetivo dessa atividade, que é chamada de “Subida da Colina” pelos sioux, é que a pessoa obtenha uma compreensão mais ampla de seu papel ou caminho no mundo.
Antes do guerreiro ir à “ Tenda da Busca da Visão”, deve se purificar na “Tenda do Suor” (Itipi). A tenda do suor era usada para purificação prévia também à “Dança do Sol”.
O termo “Tenda do Suor” é usado há muito tempo e não chega a expressar realmente o propósito dessa cerimônia. O propósito é purificar o corpo e a mente, mais precisamente, concentrar a mente e fixar o corpo.
A Tenda do Suor é construída com dezesseis varas de salgueiro e tem forma circular. A porta da tenda da purificação é bem baixa, para que se tenha que entrar de joelhos. O que arremete o discípulo instantaneamente à idéia de humildade.
Usa-se pedras vulcânicas num buraco de fogo e joga-se água para criar-se um vapor constante. É uma tenda fechada, escura, incentivando o recolhimento. Por vezes se libera o calor através de uma pequena abertura. A oração é constante e repetida nas quatro direções.
Depois de purificado na tenda do suor, o discípulo acompanhado de seu wicasa wakan sobem uma colina wakan, lugar elevado de poder, levando consigo à cavalo varas e salvia para oferendas. Se cava um buraco suficientemente grande para caber o buscador da visão. Fica no centro e ora constantemente para as quatro direções. Implorando à wakan tanka, se dirige a todas as ajudas sobrenaturais que estão a sua disposição.
Deve permanecer desperto todo o dia e evitar pensamentos que o distraiam. Logo começa a chegar os mensageiros, em forma de animais que são sábios à sua maneira. Pela noite pode adormecer sobre o leito de salvia e aí é onde frequentemente sobrevem as visões mais importantes, visões “muito mais reais e fortes que os sonhos ordinários”.
Também de noite chegam os wakinyan oyate, os seres do trovão, aterradores, que põe à prova o jovem. Deve estar de pé quando nasce o sol. Sua súplica durará três ou quatro dia.
Nessas visões, o homem pode se tornar naquilo que sonha. Já dizia Shakespeare: “Estamos feitos do tecido dos nossos sonhos”.
O sonho tinha importância determinante, e o “sonho” obtido na tenda da visão, trazia a realidade ao coração do discípulo fundindo os dois “lados da vida”em um só. A visão ditava seu destino e se colocava à serviço da sociedade fazendo uso de sua vocação. Já diziam os velhos shamans que só se pode chegar à visão quando somos capazes de sonhar as coisas por dentro. O modo como os indios conheciam alguma coisa era transformando-se temporariamente nela.

A DANÇA DO SOL ( WI WANYANG WACIPI)

O ritual Sioux guerreiro por excelência é a Dança do Sol. Permite aos Guerreiros o direito de ofertar sua dor, seu sangue, suas preces e a si mesmos, sacrificando-se pelo bem de todo o Povo. A Dança do Sol é realizada normalmente uma vez por ano( solstício) em cada Tribo. Esta cerimônia dura quatro dias e honra as Quatro direções e a sagrada Árvore da Vida. Durante a cerimônia os guerreiros têm a oportunidade de provar o seu valor como protetores do Povo. Não pode ser feita por qualquer um, somente por uma pessoa de valor e, caso seja bem sucedido, encarna depois do rito a figura do lider dirigente.
Antes de começar a dança, o guerreiro escolhe um padrinho que já realizou essa dança ao menos uma vez que será responsável pela coragem do dançarino e sua força de caráter. A disposição e coragem necessária para ficar dançando sem ingerir comida ou água durante quatro dias torna-se um verdadeiro teste de estrutura e do caráter do dançarino. Os meses de preparação que precedem a Dança do Sol incluem o jejum, a Busca da Visão, as Cerimônias de Purificação e muitas horas de oração pessoal. Uma queda durante a Dança do Sol traz desonra ao padrinho do guerreiro que caiu e pode ser o presságio de um período de infortúnio para a Tribo ou Nação. O primeiro a se sentir desonrado é o padrinho, que não preparou adequadamente o guerreiro através de métodos mais rigorosos antes do início da prova.
A preparação do local usado para a Dança do Sol segue todo um ritual. Cabe às mulheres da Tribo preparar um terreno circular. Enquanto isso, vai-se abrindo uma clareira ao seu redor do centro, ali onde a Árvore da Dança do Sol será colocada. A Pessoa-em-Pé (árvore) escolhida deve ser carregada sem tocar o solo, a partir do local onde foi cortada, até o centro do círculo para ser replantada na terra. Esta Árvore da dança do Sol representa a Árvore da Vida.
Depois de fixar a árvore em seu lugar, uma Sacola da Dança do Sol é colocada no alto do Mastro da Dança do Sol. De acordo com o ritual, esta passa a ser a nova identidade mágica da Pessoa-em-Pé.
A Sacola da Dança do Sol é uma bolsa de couro que contém a Magia Sagrada dos Totens. Estes pedaços de pêlos, dentes, penas, ossos e garras representam a magia e a capacidade de Cura destas Criaturas. Cada Dançarino do Sol está em busca de uma Visão de Sabedoria para que lhe seja revelada sua função e crescimento da Tribo, assim como a sua responsabilidade no destino do grupo.
No terceiro dia os dançarinos são trespassados através do tecido conjuntivo dos músculos peitorais, primeiro com um furador e depois com um bastão afiado de cerejeira. Depois prendem-se tiras de couro às pequenas estacas que lhe atravessavam o peito (região do ponto dois ou ponto psicológico de acordo à algumas tradições) fazendo-lhes pequenos cortes para que seu sangue alimentasse a Mãe Terra. A luz solar entrava por uma abertura e iluminava o rosto e o peito. Atado à Árvore da Dança do Sol ou à Árvore da Vida criava-se um efeito especial de guarda-chuva ou de carrossel.
Também se tocava-se um tambor, como em outros muitos ritos, o tambor chamânico. A forma redonda do tambor representa o universo, e seu centro é o coração que bate no centro do universo.
A dor, o medo, o som do tambor, os odores especiais mesclados ao giro-carrossel, colocava o discípulo num transe profundo, apto para ter sua visão, seu sonho de destino. enquanto o guerreiro não recebesse essa visão, deveria realizar a dança ano após ano. Se passava pela prova, tinha a visão necessária para um dirigente não só conduzir às pessoas, mas antes de tudo, conduzir a si mesmo. O guerreiro dançante, após a prova, se tornava um wakan, estava pleno de energia (skan), e entre outras coisas podiam impôr as mãos para curar os doentes. Diziam que isso era possível porque o guerreiro foi capaz de curar a si mesmo.

SÍMBOLOS E CERIMÔNIAS

São muitas as cerimônias e simbolos, trateremos de abordar as mais importantes:

A Tenda Lua: É onde as mulheres se reúnem durante seu período menstrual para ficarem juntas e se sentirem em sintonia com as mudanças ocorridas em seus corpos.
A Tenda da Cura: Juntamente com a Tenda da Lua são chamadas por vezes de “Tendas Negras”. Dentro da Tenda Negra das Mulheres são transmitidos ensinamentos fundamentais que permitem a cada mulher se relacionar com as energias femininas da Grande Mãe.
A cerimônia dos Irmãos de Sangue: Dá-se um pequeno corte nas mãos dos guerreiros e fazem um juramento. A base da Cerimônia dos Irmãos de Sangue é jurar eterna lealdade a uma amigo, agora transformado em Irmão.
Cerimônia da nomeação: A nomeação era um ato mágico, e o nome “secreto”correspondia a uma nova entidade. O nome guarda uma estreita relação com o “poder” e a natureza profunda. Só um wicasa wakan tem o poder para nomear um guerreiro.
Cerimônia da Contagem de Golpes: As conquistas guerreiras eram narradas e os atos de valor e coragem exaltados. O cocar, símbolo do chefe, tinha relação direta com a Contagem de Golpes pois cada pena presente no cocar simbolizava uma façanha, um ato de bravura, realizado tanto na guerra quanto na paz
Pow-Wows: Os homens se reuniam em círculos, partilhando novos métodos de rastreamento, caça e pesca, enquanto as mulheres partilhavam novas técnicas de artesanato e de tingimento de peles, trocando receitas de cozinha e de medicamentos. Os Círculos de Cura discutiam novos usos para as plantas, estudavam a necessidade do Povo e conversavam sobre suas Visões e Sonhos de Magia. Os Clãs Guerreiros comentavam os mais recentes atos de bravura e falavam da Contagem dos Golpes. As crianças se dedicavam a novas brincadeiras e contavam umas às outras as histórias que haviam aprendido com os Avós. Todos se sentiam plenamente satisfeitos, reanimados pelo sentido de Unidade do Pow-Wow. Era também durante o Pow-Wow que se realizava a Cerimônia dos Irmãos-de-Sangue e tinha como ponto alto a Cerimônia do Sol. Haviam jogos que punham em relevo os atos de bravura dos jovens Guerreiros. Promoviam-se corridas de cavalo, competições de canoagem, e corridas a pé pela floresta. Era durante as competições de caça que se conseguia a comida para os banquetes festivos especiais. Cada jovem Guerreiro esforçava-se por representar bravamente a sua Tribo, o seu grupo, ou, ainda, o seu Clã.
Cabelos Entrançados ou Contadores de Histórias: Algumas noites eram dedicadas às Histórias e às tradições. Esses Contadores de Histórias usavam uma pequena mecha com tranças e nós, que lhes caía pelo meio da testa e que os caracterizava como professores e historiadores da Tribo. Um Cabelo Trançado do sexo masculino não precisava participar das batalhas, mas deveria observar tudo e recordar-se mais tarde, passo a passo, do desenrolar da luta. Já um cabelo trançado do sexo feminino era a historiadora que mantinha viva a tradição feminina e que deveria ensinar as mulheres mais jovens a sentir orgulho de seus respectivos papéis dentro da Tribo.
Os Contadores de Histórias viajavam entre os grupos e as Tribos das diversas Nações, levando as notícias dos acontecimentos que afetavam a todos os Nativos.

“ Cantando celebrai, oh Anciãos,
A história da nossa raça.
Que me seja dado ver em minha alma
O amor em todos os rostos.
E todos os espíritos que vieram antes,
O poder mágico que eles adquiriram,
A Tradição Sagrada que me transmitiram
Para que a memória não desapareça.
Oh Contador de Histórias, sede minha ponte
Para aqueles outros tempos
Para que eu possa Caminhar em Beleza
Com o ritmo antigo e a antiga rima.”
Oração de um Contador de Histórias.

O Bastão-que-fala e a Pena da Resposta: É um instrumento usado toda vez que um Conselho é convocado. Permite que todos os Membros do Conselho apresentem seu Sagrado Ponto de Vista. O Bastão-que-fala passa de pessoa a pessoa à medida que a reunião se processa. Somente a pessoa que segura o bastão tem o direito a falar naquele momento. A Pena-da-resposta deve ser passada para quem vai responder a pergunta.
“Esse procedimento parlamentar reconhece o valor de cada orador. Cada Membro do Conselho deve ouvir com atenção as palavras que são ditas, de forma que, quando chegar sua vez, não repita informações desnecessárias nem faça perguntas impertinentes. As crianças indígenas aprendem a escutar desde os três anos de idade. Aprendem também a respeitar o ponto de vista dos outros. Isso não quer dizer que não podem discordar, mas estão obrigadas por sua honra pessoal a permitir que cada um expresse seu Sagrado Ponto de Vista”- comenta Jamie Sans.
Cachimbo: Simboliza a paz e a união entre as nações. O fornilho do Cachimbo representa o aspecto feminino de todas as coisas vivas e o tubo é o símbolo do aspecto masculino em todas as formas de vida. A fumaça que sai do Cachimbo representa prece visualizada e faz referência ao espírito presente em todas as coisas. Os Portadores de Cachimbo são os guardiões da Tradição Sagrada.
A Pintura de Guerra e a Pintura Cerimonial: A Cara Pintada usada nas ocasiões de guerra tinha por intenção assustar o inimigo e ressaltar a expressão de bravura de cada Guerreiro. Costumavam pintar seus cavalos como extensão da sua pintura. Quanto mais assustadora era a Pintura de Guerra, mais conseguia provocar medo ao inimigo. Na hora de surpreender o inimigo, pulando sobre ele, o Guerreiro soltava um grito de guerra, revelando a sua assustadora Cara Pintada. Através deste ato de coragem, ele tentava provocar uma paralisia temporária no inimigo e conseguir uma vantagem na batalha. Já a Cara Pintada das Festas e dos Cerimoniais possuíam outra função; ela servia para revelar a beleza do espírito individual aos olhos de todos os membros da Tribo, não era uma forma de máscara para os Guerreiros, ou de esconder a sua identidade; pelo contrário, servia para expressá-la da forma mais pessoal possível. As máscaras só eram utilizadas, nas danças ou nos rituais, quando havia necessidade de representar outro Ser, diferente do Ser de determinado indivíduo.
O Cabelo: Acreditavam que o cabelo era a extensão da alma, por isso para cada ocasião havia um determinado penteado ou corte. Os Sioux ultilizavam seus cabelos longos sempre enfeitados para representar a paz entre as tribos. Quando algum Sioux querido vinha a falecer, os demais desfiavam os cabelos
a fim de demonstrar a tristeza causada pela morte.

FORMAÇÃO GUERREIRA

Toda a formação e doutrina Sioux permitiu que esse povo, como acontece com todos os povos guerreiros, desenvolvesse um profundo senso de unidade entre si e com a natureza traçando uma conduta moral naturalmente sem a necessidade de imposição, o que os permitia serem talentosos guerreiros que colocavam na coragem e na honra o maior dos ideais
As histórias e os frutos dessa tradição, hoje quase que totalmente perdidas, nos mostram esses indígenas como figuras notórias, dignas e de uma nobreza exemplar.
Sua base moral era sedimentada já desde criança. Acreditavam profundamente no silêncio – signo de um perfeito equilíbrio. O silêncio é o absoluto repouso ou equilíbrio de corpo, mente e espírito. O homem que preserva a sua individualidade está sempre calmo ante as tempestades da existência. A um índio lhe foi perguntado o que é o silêncio? E este respondeu: “É o Grande Mistério! O Sagrado silêncio é a Sua voz! O silêncio nos traz autocontrole, coragem, perseverança, paciência, dignidade e reverência. O silêncio é a pedra angular do caráter”.
Todo o menino nascido na tribo durante os primeiros meses era amamentado por todos os guerreiros da tribo, dessa forma esse menino ao tornar-se um guerreiro, considerava todas as mulheres da tribo como suas mães, todos os velhos como seus avôs e todos os outros guerreiros, seus irmãos, e estando em batalha, cada um cuidaria de sua vida e da vida de seus irmãos, sendo esse um sentimento tão forte que jamais um irmão seria abandonado no campo de batalha, se tivesses que morrer morreriam juntos, irmãos na vida e na morte.
De criança, tanto os meninos quanto as meninas brincam separadamente e com jogos diferentes. “Creio que essa é uma das razões pelas quais quando as meninas crescem se tornam pessoas tão amáveis.”- comenta Urso em Pé.
O Rito de Passagem usado para meninos Nativos costumava ser o recebimento e o cuidado de seu primeiro cavalo. Isto representava o primeiro passo para a masculinidade e dentro de sua formação de caráter, a possibilidade de desenvolver a responsabilidade. O segundo passo consistia em desenvolver a humildade, respeito e admiração. Acompanhavam os caçadores mais experientes para aprender a rastrear, até tornar-se, ele próprio, um provedor de sua Tribo. Nesse caso, a função do jovem era carregar mocassins, Quando nevava ou chovia, esses calçados precisavam ser constantemente trocados. O jovem devia ter sempre mocassins secos à mão para o caso de qualquer membro do grupo precisar fazer uma rápida mudança de calçado.
À medida que o jovem assimilava a conduta adequada de um Guerreiro, ia recebendo maiores responsabilidades até ser escolhido para tornar-se responsável por um grupo de caça ou uma equipe de ataque. Se acontecesse de um cavalo ou um homem se perder sob sua chefia, o nome de sua família ficava desonrado e ele ficava desmoralizado. Conseguir liderar com sucesso um grupo de caça ou um ataque marcava a transição entre o final da adolescência e o início da vida adulta.
Aprendiam com os garotos mais velhos canções de bravura, para enfrentar a morte conforme o código dos Lakota: sem medo… O canto de bravura ajudava a enfrentar com coragem as provações e animava os espíritos vacilantes.
O espírito do Clã dos Guerreiros é representado pela Flecha. A Flecha é direita, certeira, e torna-se mortal quando é apontada para matar. Os Bravos Guerreiros só adquiriram o direito de serem chamados por esse nome depois de passarem por muitos testes de liderança e agilidade. A coragem era o ingrediente principal na formação de um Guerreiro, porém deveria ser temperada pela verdade, pelo senso comum, pela destreza física, integridade e ligação com os níveis espirituais antes que se merecesse o direito de pertencer ao Clã dos Guerreiros. Uma vez concluídos os Ritos de Passagem para os rapazes de 13 anos, iniciava-se o lento e árduo processo de aprendizagem para tornar-se um Homem. As lições eram aprendidas com o pai, um tio, com outro membro do Clã do Guerreiro ou com um Chefe. Estas lições consistiam em aprender a caçar, rastrear, a participar de um ataque, e a colaborar na Contagem de Golpes. Havia ainda a Busca de Visão, a Dança do Sol, e a liderança de um grupo de caça. Durante a dança noturna as atividades eram reencenadas para o resto da Tribo, celebrando assim cada uma destas conquistas.
Cada jovem que honrava seu Clã com atos de bravura era coberto de honrarias. Cada passo que conduzia ao caminho extenuante, já que a liderança da Tribo, e por vezes da própria Nação, recairia nos ombros da próxima geração do Clã dos Guerreiros. A habilidade de um homem fabricar flechas pretendia demonstrar a exata medida de seu cuidado com a liderança do Povo. O melhor dos melhores acabaria sendo escolhido como Chefe, após ter as suas capacidades comprovadas. Nesta ocasião, ele já teria, pelo menos, cinqüenta anos de idade. Um Guerreiro jamais seria considerado um Ancião, nem um sábio o suficiente para tornar-se o Chefe principal da Tribo, enquanto a sua vida não estivesse plena de experiência. O indivíduo só era considerado adulto e maduro o suficiente para tornar-se Chefe aos cinqüenta anos de idade.
De acordo com a Tradição Sioux, logo após a puberdade o jovem tornava-se um Soldado-Cão da Tribo, aprendendo a servir e a ser leal para com o seu povo, de acordo aos códigos, para além da coragem e valentia, era necessário a generosidade para se tornar um líder.
Enquanto agia como sentinela e protetor do acampamento. Depois que estas lições estivessem bem assimiladas, alguns destes jovens eram chamados para participar da Sociedade do Coração Forte, considerado um agrupamento de elite. A sociedade era constituída pelos membros que haviam se distinguido na batalha e que já possuíam muitas Penas de golpe. O Clã dos Guerreiros sentia-se muito honrado quando algum de seus membros era escolhido para entrar na Sociedade.
Alguns jovens casavam-se cedo e não conseguiam entrar para o agrupamento do Soldado-Cão porque tinham que sustentar a família. Estes homens passavam a ser tratados com um pouco de escárnio e eram chamados de “Os Toma-Conta das Barracas”. Muitos jovens queriam fazer parte do Abrigo-do-Soldado-Cão mas não eram admitidos. Todos os membros do grupo viviam num mesmo Abrigo, no qual as mulheres não tinham permissão para entrar. As mães dos Bravos costumavam preparar as suas refeições. Mas quando levavam a comida de seu filho, só podiam colocar uma das mãos na tenda, no máximo até o pulso.
Os melhores caçadores e rastreadores provinham do Clã dos Guerreiros. Nem sempre estes homens se tornavam Chefes, ma podiam chegar a ocupar lugares de honra no Conselho dos Homens, que incluía todos os líderes dos diversos Clãs. Uma vez completado o treinamento de Soldado-Cão, os Guerreiros ficavam livres para casar-se, tornando-se membros muito respeitados por todos em função do serviço que prestavam a seu Povo.
Dependendo de sua atuação, os membros do Clã dos Guerreiros podiam pertencer também a outros Clãs. A partir dos sete anos a criança já demonstrava os seus dons e talentos. A esta altura os avós já haviam merecido um descanso do trabalho cotidiano mais pesado. Eles se incumbiam de observar os talentos naturais que cada criança possuía para oferecer à Tribo. Os dons naturais determinavam a que professores cada criança deveria ser encaminhada, após realizar o seu Rito de Passagem. As meninas aprendiam suas funções junto às outras mulheres, e os meninos aprendiam, junto aos homens dos diversos Clãs, as tarefas para as quais demonstrassem maior aptidão. Desta maneira, cada criança tinha os melhores modelos possíveis, podendo desenvolver seus próprios dons e talentos para continuar honrando a sua Tribo.
Depois de ser honrado com o título de Chefe, um homem jamais deveria levantar a voz contra uma mulher ou uma criança. A primeira obrigação de um guerreiro siox era proteger as mulheres, as crianças e os anciãos. Esta regra era comum a todos os Clãs dos Guerreiros. Estes Bravos asseguravam a proteção das futuras gerações e sabiam honrar os tesouros vivos simbolizados pelas mulheres, como Mães e Provedoras da Tribo. O sentido de bravura e lealdade destes Guerreiros mantinha-os acima das discussões tolas, No entanto, eles eram, muitas vezes, submetidos a verdadeiras provas, por causa das brigas entre os membros da Tribo que ainda não haviam desenvolvido estas mesmas qualidades. Um verdadeiro Chefe tinha que ser equilibrado e compreensivo, colocando os interesses do seu Povo acima de seus próprios sentimentos. O caráter do Guerreiro era forjado por anos de silêncio, durante os quais ele assimilava a experiência dos Anciões da Tribo. Cada Guerreiro deveria passar por este aprendizado até reconhecer o valor da Flecha em sua essência mais verdadeira.
A Flecha era rápida para proteger e rápida para agir, nos momentos de necessidade. Um Chefe sempre sabia prever todas as possibilidades, era certeiro e corajoso, mirava para alcançar o melhor e o mais alto, e se sentia totalmente responsável pelas decisões que tomasse. O Arco da Beleza expressava a alegria de sua missão de liderança. Mesmo em momentos de grande tristeza a capacidade de se curvar sem quebrar-se é sugerida através do Arco da Beleza, o Arco da força interior – aquele que faz voar a flecha. Dizia-se que o Arco da Beleza era feito do mais puro ouro, manifestando a luz dourada do amor do Avô Sol, e era incrustado de pérolas, que representavam essência do carinho da Avó Lua. Um dos princípios básicos do Clã dos Guerreiros era o de manter o equilibro interno entre o masculino e o feminino dentro de cada lutador. Este equilíbrio simbolizava a síntese entre a vontade de se curvar – como o Arco da Beleza – e de disparar para o alto a Flecha da Verdade, para que o resto do Mundo pudesse travar conhecimento com ela.
A perda de prestígio era a pior coisa que poderia acontecer a um guerreiro. No caso de uma crise de honra, um Guerreiro podia até mesmo ser expulso de sua Tribo. Quando a infração era muito séria, a Nação inteira nunca mais receberia aquele indivíduo junto às suas fogueiras.
A dança de guerra costumava realizar-se à noite. Era mostrada em público apenas em ocasiões especiais ou em reuniões domésticas de raro interesse. Na dança, o grito de guerra e a resposta sempre precediam cada canto. Ele era emitido pelo líder e respondido pelo grupo. Nenhum dos presentes tinha a liberdade de falar durante a dança. Os discursos consistiam frequentemente em gracejos trocados entre indivíduos, ou críticas feitas às fraquezas do outro, ou ainda apelo aos sentimento patriótico.
Antes dos guerreiros saírem para a guerra, o profeta ou pajé erguia uma tenda e sentava-se ali sozinho, sondando o futuro e tendo as visões do que aconteceria. Os homens traziam-lhe oferendas, e ele preparava sortilégios e amuletos para os proteger na guerra. Então, antes de partirem os batedores, todos se reuniam no centro do acampamento e sentavam-se em círculo aguardando o profeta. Ele vinha, entoava uma canção sagrada e entregava aos guerreiros os amuletos que fizera, revelando a cada um o seu destino.
Uma formação guerreira como a dos sioux, não facultava para que um ou dois se tornassem grandes guerreiros, mas todos à sua medida, eram inspirados pelos seus irmãos heróis promovendo um clã poderosíssimo, tanto em valentia e honra, quanto em generosidade e humildade.
Toda a formação, educação e meios de vida dos Sioux levam seus integrantes a participarem de uma forma consciente dos aspectos invisíveis da natureza, sendo o ancião aquele que enxerga tão bem de um lado quanto do outro, essa mentalidade de domínio pessoal e de comunhão com a natureza os levaram a um ponto de vista bastante peculiar da morte. Para um guerreiro Sioux a morte não passa de um portal. Consideravam que a vida e a morte são uma mesma forma de energia, uma visivel e outra invisivel. A energia tem dois aspectos: tun, o aspecto visível e wakan, o invisivel; também se chama wakan a transformação do visivel em invisivel, e tun à metamorfose inversa. O nascimento se chama tunpi, pasagem de um estado invisivel a um estado visivel, a morte é wakan, pois é o processo inverso. O nascimento e a morte são mágicos, são as transformações das energias eternas. O sopro de vida se chama ni, sopro, vapor, vida, que vai em direção à morte.
Conta-se que ao nascer a criança recebe o sopro da vida(ni) de Takuskanskan, um espírito guardião que vem das estrelas e que quando morre, esse sopro volta para o espírito do Mundo, por um caminho invisível que simboliza a via-láctea.
Essa mentalidade perante a morte era o maior legado da educação guerreira que, não temendo o desconhecido, os Sioux poderiam caminhar em direção à morte, “ também conhecido como deixar cair o manto”, com a alegria própria dos grandes guerreiros que permanecem ainda hoje vivos dentro da história e do coração dos guerreiros atuais.
Cabe destacar dois grandes sioux, que magicamente se tornaram, pela forma de como viveram e morreram, símbolos de seu povo: Touro Sentado e Cavalo Doido.
Touro sentado era membro e chefe de uma poderosa sociedade de guerreiros, os Corações Fortes, sendo na realidade um “núcleo esotérico” . Touro sentado recebeu poderes do “Búfalo” e da Águia o canto que lhe transmitiu sua missão, por essa visão afirmava ser um enviado de Wakan Tanka para cuidar da nação sioux. Tinha a faculdade de compreender “a voz dos animais” (wama kas kan), de comunicar-se com eles, com os pássaros que lhe previam os perigos e também com a águia, um animal-poder. Touro sentado era um homem de constituição forte, com fortes mandíbulas, um verdadeiro touro que dirigia o povo sioux, pelo qual lutou, viveu e morreu. Grande líder, respeitado por todos, dirigiu inúmeras vezes a Cerimônia do Sol.
Cavalo Doido tinha a pele muito escura e cabelos castanhos, diferente aos cabelos negros dos índios. Era pequeno e magro. Tinha 13 anos quando buscou sua primeira visão, mas não pediu auxilio a nenhum wicasa wakan, o que não era comum. Recebeu seus poderes do “ Cavalo” e da Águia do oeste, trazendo o conhecimento da “mão esquerda”, por isso era conhecido também como guerreiro-esquerdo. Era um espreitador por natureza, fazia tudo ao contrário para através das reações analisar e descobrir as falhas de cada um. Num jantar quando todos se sentavam ele se levantava. As vezes montava o cavalo ao revés. Quando todos iam para a direita ele ia para a esquerda. Não participava das festas onde eram contados os feitos guerreiros e nunca participou da dança do sol. Suas ações eram bizarras, mas totalmente conscientes. Com essa conduta definiu, através das reações de Custer, a estratégia da vitória contra a 7a cavalaria em Litlle Big Horn.
Era além de um chefe guerreiro um grande chamãn. Ao contrário de outros famosos chefes índios, nenhuma fotografia foi tirada de Cavalo Louco, que costumava responder aos fotógrafos que o procuravam: “Meu amigo, porque você quer me encurtar a vida levando minha sombra?”.
Conta que com vinte e dois anos ganhou um feitiço onde nunca levaria um tiro.
General Crook, excelente atirador, disse que havia disparado 20 vezes, sem alcançá-lo.
Desses dois grandes líderes, temos mostras históricas de impecabilidade e magia: Touro Sentado pegou o seu cachimbo e se sentou a cem metros das filas índias , ao alcance das balas dos soldados. Começou a fumar tranquilamente. Voltou a cabeça para seus atônitos companheiros e lhes disse: “Os que queiram fumar comigo, que venham”. Dois sioux e dois cheyenes aceitaram o desafio. Um dos sioux, Touro Branco, relata: “Porém não perdemos tempo, fumamos o mais depressa que podemos. Ao nosso redor as balas levantavam o pó, e as ouvíamos sobre nossas cabeças. No entanto, Touro Sentado não tinha medo, estava sentado tranquilamente, como se estivesse em sua casa e fumava com parsimonia. Quando terminou seu cachimbo, se levantou e voltou para as linhas indias.
Cavalo Doido aproveitou o momento e deu uma impetuosa volta ao redor dos soldados, e nenhuma das 400 winchesters, com tiros ininterruptos, sequer tocaram a Cavalo Doido.
Cavalo Doido chamou a seus homens: “Hoka hey! É um bom dia para combater, é um bom dia para morrer. Adiante, corações forte e valentes! Atrás, corações fracos e covardes! Com esse espírito venceu Custer na batalha de Little Big Horn.
Com esse espírito, Touro Sentado e Cavalo Doido, marcaram de forma profunda a cultura marcial dos grandes guerreiros sioux.

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