TIBET

A Tradição

Pouco se sabe sobre a cultura marcial do Tibet, sua cultura e sociedade se viram afastadas do mundo criando uma fronteira misteriosa e singular. Ainda assim, sua tradição está viva e presente com os Khampas tibetanos, estirpe nômade guerreira, valente e corajosa.

Os Khampas foram os primeiros a descobrir as reais intensões da China- a extirpação dos tibetanos e cultura. Lutaram sempre na primeira linha e defendido seu país incontáveis vezes.

 

Seguem em alguns aspectos características similares as dos espartanos. Treinam muitas horas por dia e cuidam da aparência antes das batalhas com o mesmo propósito dos espartanos e tem um orgulho próprio muito distinto. Sua cultura marcial vem de um tempo muito distante. Herdeiros de uma tradição de sábios “Kham”que significa:grisalho, cabelo cinza (representando o sábio), transmitem oralmente à seus filhos histórias guerreiras, façanhas do rei Gesar de Ling e ensinam sobre sua origem ancestral, definindo a coragem como plataforma dessa tradição e o vencer a si mesmo como ápice do poder humano.


Na tradição guerreira do Tibet, encontram-se textos que fazem menção às origens da sociedade humana e à distinção singular demarcada entre o guerreiro e o covarde. No texto que segue, tem-se um exemplo claro:

A partir do grande espelho cósmico
Sem início e sem fim,
Tornou-se manifesta a sociedade humana.
Naquele momento nasceram a liberação e a confusão.
Quando ocorreram o temor e a dúvida
Perante a confiança, que é primordialmente livre,
Ergueram-se multidões de incontáveis covardes.
Quando a confiança, que é primordialmente livre,
Se fez seguir e assim trouxe o deleite,
Ergueram-se multidões de incontáveis guerreiros.
A multidão de incontáveis covardes
Ocultou-se em cavernas e selvas.
Mataram irmãos e irmãs e comeram sua carne,
Seguiram o exemplo das bestas,
Provocaram o terror entre si;
Tiraram assim sua própria vida,
Acenderam a grande fogueira do ódio,
Agitaram sem cessar o rio da luxúria,
Rolaram na lama da indolência:
Nasceu a era da fome e da praga.

Dentre aqueles que se consagraram à confiança primordial
— As múltiplas hostes de guerreiros —
Alguns foram às montanhas
E ali ergueram belos castelos de cristal.
Alguns foram às terras de belos lagos e de belas ilhas
E ali ergueram palácios encantadores.
E ali semearam o arroz, cevada e trigo.
Sempre livres de conflito,
Sempre amáveis e generosos,
Com sua condição insondável, que existe por si mesma, sem receber estímulo
Foram sempre devotados ao Rigden Imperial.

O espelho cósmico se refere a um espaço aberto, vasto e incondicional. É um universo eterno, sem começo nem fim. Sobrepassa os pensamentos e dentro desse universo não há espaço nem para a dúvida nem para a ignorância. Ele dá a visão do Todo, da Unidade incondicional. Ao mesmo tempo que é o círculo é o ponto central. É da vivência do reino do espelho cósmico na sua forma mais profunda que surge a sabedoria. A humanidade surge Dele e a Ele retornará. Na humanidade, portanto, desde o seu princípio, surgiram hostes de guerreiros e uma tradição secular de conhecimento capaz de fazer com que o homem dominasse suas imperfeições e limitações.


Mas para entender essas concepções e sua profundidade de pensamento devem-se analisar primeiramente as origens da tradição tibetana.

O Tibet sempre esteve associado ao mistério, ao desconhecido, a altíssimas montanhas brancas permeadas por homens sábios e santos. Dificilmente se imagina que o Tibet nasceu de uma estirpe de guerreiros, que defenderam suas terras de inúmeras invasões em batalhas sangrentas. Ainda nos dias de hoje se encontram grupos de guerreiros conhecidos como Khampas, equivalentes aos Gurkas do Nepal.
Alguns dizem que são descendentes dos Qiang, um grupo de tribos nômades guerreiras, registradas pelos chineses desde o Século II a.C. Outros afirmam que a origem da formação do Tibet vem de tempos muito mais antigos. De qualquer forma todos concordam que sua formação foi guerreira.
Um dos maiores guerreiros do Tibet, que inspirou guerreiros por muitos séculos com suas façanhas e seu alto grau de sabedoria, foi o Rei Gesar de Ling. Gesar é o Rei benevolente, equivalente ao Caesar latino, Kaiser alemão, e também para a palavra russa “rei”, Tzar.
Ling se refere ao reino provincial de Ling, situado na província de Kham, no leste do Tibet. O significado literal de Ling é “cintilante”, guardando talvez uma conotação mais simbólica do que somente de um local físico propriamente.


Viveu aproximadamente no século XI. Seus feitos como guerreiro e governante foram tão impressionantes que, findo seu reinado, lendas e relatos sobre seus feitos despontaram por todo o Tibet e acabaram se tornando a principal epopéia da literatura tibetana. Gesar venceu a barbárie e a ignorância valendo-se dos princípios tradicionais do Tigre, do Leão, do Garuda e do Dragão (Tak, Seng, Khyung, Druk), quatro animais conhecidos com símbolos similares na China, Japão, India e Koréia. Algumas lendas afirmam que Gesar de Ling e todo o seu exército estão vivos e que um dia retornarão de Shambhala para vencer as forças do mal.


A canção do Rei Gesar é o poema épico mais extenso do mundo. Contém mais de 120 volumes com mais de um milhão de versos. Dito de outra forma, é a obra mais extensa dentre os cinco épicos mais longos da história, a saber: O Gilgamesh, da Babilônia; Ilíada e Odisséia, da antiga Grécia; O Ramayana e o Mahabharata, duas das antigas epopéias da antiga Índia.


Os ensinamentos foram transmitidos de geração a geração sob a forma oral, tendo sido escritos muito tempo depois. Acredita-se também que para além do Gesar de Ling mítico, surgiram muitos outros que encarnaram os mesmos princípios, se estendendo pelo tempo, formando conseqüentemente um conhecimento fantástico, a explicar a magnitude da epopéia desse Rei.
Muitos tibetanos acreditam que o rei Gesar de Ling foi inspirado e guiado pelos Rigden e pela sabedoria shambaliana.
Tanto no Tibet, como em muitas outras regiões da Ásia, circulam histórias sobre um reino lendário que foi fonte de conhecimento e cultura para as atuais sociedades asiáticas. Esse lugar de paz e prosperidade, perfeito e ideal, era governado por homens sábios. Shambhala é o equivalente a Avalon, Camelot, Acrópole, Shangrilá, etc.


As lendas nos contam que Sidharta Gautama, o Buda, transmitiu ensinamentos avançados a Dawa Sangpo, o primeiro rei de Shambhala. Acredita-se que esse reino continua a existir, oculto num vale remoto em algum lugar do Himalaia. De acordo com as descrições de Mipham, célebre budista do século XIX, na montanha de Kailasa. O palácio dos Rigden — a palavra tibetana Rigden significa literalmente “detentor da sabedoria” —, os soberanos imperiais de Shambhala, ergue-se no topo da montanha de Kailasa. No centro do parque do palácio ergue-se um templo majestoso construído por Dawa Sangpo.


Outras lendas relatam que o reino de Shambhala desapareceu da terra há muitos séculos. Num dado momento, a sociedade como um todo havia alcançado a iluminação, e o reino desvaneceu-se numa esfera ainda mais celestial. Diz-se que ainda continuam velando pelos humanos e que um dia retornarão para salvar a humanidade da destruição.
Muitos sábios consideram Shambhala não como um reino externo, físico, mas como uma realidade interior repleta de poderes latentes, vêem-no como o ponto mais alto da consciência humana.


Para além de Shambhala representar um fato ou uma ficção, ela representa o ideal da sociedade humana. Muitos tibetanos acreditam que o rei Gesar de Ling foi inspirado e guiado pelos Rigden e pela sabedoria shambhaliana.


A visão do guerreiro tibetano é profunda e sólida. Ultrapassa as fronteiras do egoísmo e do medo, apontando para a atitude iluminada que existe potencialmente no interior de todo ser humano.

2.2. O CORAÇÃO DO GUERREIRO

Para o guerreiro tibetano, a condição de guerreiro não significa entrar em guerra com os outros. A palavra “guerreiro” traduz o tibetano “pawo”, que significa literalmente “aquele que é corajoso”. Nesse contexto, o espírito guerreiro é a tradição da coragem humana, ou tradição do destemor.
Coragem, em última instância, é não ter medo de ser quem somos, não ter medo de si mesmo. Ante os problemas do mundo um guerreiro pode ser heróico e amável. Quando se tem medo do mundo automaticamente se torna egoísta e inseguro. Busca-se viver isolado e se promove, ainda que inconscientemente, a separatividade e a covardia.


Dentro do princípio da coragem, deve-se pensar que se um guerreiro não ajudar o mundo ninguém o fará. Na realidade, antes de começar com o amigo ou com a família, deve começar por si mesmo. Confúcio já dizia que para governarmos o mundo, deveríamos primeiramente, governar a nós mesmos.


O guerreiro deve vislumbrar dentro de si a bondade fundamental e esta se inicia com a valorização de experiências muito simples. Refere-se ao que há de intrinsecamente bom em estarmos vivos. Constantemente temos vislumbres de bondade, mas pelo desejo não chegamos a reconhecê-lo. Quando vemos um pôr-do-sol, a dança de uma fogueira, o sorriso de uma criança ou quando temos a sensação de frescor ao sair de um quarto abafado, estamos testemunhando a nossa própria bondade fundamental. Esses acontecimentos podem durar segundos, mas são experiências reais de bondade, em que se pode experimentar a não-agressividade, conhecida em algumas artes marciais como a não-violência. É a bondade que constitui a base de nossas vidas, não a violência.
O mundo é bom, assim como nós. A bondade no guerreiro não é arbitrária.

A técnica para vislumbrar a bondade fundamental é a concentração. Para compreendê-la plenamente é preciso receber orientação direta e individualizada. Devemos concentrar até que a que a mente e o corpo possam se sincronizar.

No dia-a-dia, o guerreiro também deve estar atento à sua postura, à posição da cabeça, dos ombros, ao modo de andar, a forma de respirar, de fato pode-se reconhecer um guerreiro só pela sua maneira de andar, de olhar as pessoas. Para uma pessoa comum, tudo é comum. Para um guerreiro tudo tem uma razão de ser, nada é comum, tudo é especial.

A bondade fundamental, ou a não-violência está estreitamente vinculada à idéia de “bodhicitta” na tradição budista. Bodhi significa “desperto” ou “ alerta” e citta quer dizer “ coração”; portanto, é o “coração desperto”. Não admira que o guerreiro — “aquele que é corojoso” — guarde relação com o coração, pois coragem é “agir com o coração”.

Um guerreiro não deve ter uma postura curva, pois assim estará escondendo seu coração, dobrando-se sobre si mesmo.

Sente-se uma tristeza, não de forma negativa, mas uma tristeza que guarda mais relação com a sensibilidade que se tem do mundo. Ela acontece porque nosso coração está absolutamente exposto. Para um guerreiro, é a experiência do coração triste e terno que dá origem ao destemor, à coragem… O verdadeiro destemor é produto da ternura e sobrevém quando deixamos o mundo roçar nosso coração.
Só se conhece o destemor rompendo o medo. A essência da covardia está em não reconhecer a realidade fulgurante do medo.
Uma das formas do medo está relacionada com a ansiedade e a agitação, como quando se rói a unha ou se coloca a mão no bolso sem necessidade, quando se entra em casa e liga a televisão ou o rádio para ter a sensação de que se está acompanhado, quando se toma tranqüilizantes ou se faz de tudo para afastar qualquer pensamento relacionado à morte. O covarde faz isso, evita o contato com seu silêncio interior, em contrapartida se casa com a tormenta da vida exterior.

Medo todos têm, só não tem quem não nasceu ou quem já morreu. O medo é a outra face da morte. Só se pode enfrentar o medo da morte depois de se aprender a enfrentar o medo da vida. Aquele que enfrenta seus medos, a vida o brinda com o destemor. O verdadeiro destemor não consiste em diminuir o medo, mas em ultrapassá-lo. O destemor é o que está para além do medo. É um estado de consciência que, ao mesmo tempo em que está vazio, está pleno. Para se atingir o destemor, é também necessário sincronizar a mente e o corpo.

A dúvida nasce sempre que a mente e o corpo não estão sincronizados. Quando corpo e mente estão perfeitamente sincronizados, as percepções são nítidas e sentimo-nos livres da dúvida, das vacilações que caracterizam a ansiedade e que tornam nosso comportamento inteiramente impreciso. A sincronização não é aleatória. Corpo, mente e percepções devem estar perfeitamente alinhados para a perfeita desenvoltura do guerreiro.

Os guerreiros kampas acreditam que o sol representa a dignidade humana, o poder humano. É o sol nascente, representando assim a aurora, o nascimento da condição guerreira. O alvorecer do Sol do Grande Leste (Sarchen Nyima) é o resultado da sincronização entre mente e corpo.

A visão do Sol do Grande Leste nos dá o sentimento de plenitude, de luz e de pureza, de um natural esplendor e brilho que se encontra no mundo. O sol da dignidade humana é comparável ao sol físico que atravessa a escuridão. Quando há um sol brilhante, não há espaço para a escuridão. Essa tradição é encontrada não somente no Tibet, mas também no Egito. Os egípcios moravam e tinham suas atividades do lado onde o sol nascia (leste) e enterravam seus mortos onde se punha (oeste).

O Sol do Grande Leste guarda relação com o mundo ideal, arquetípico, perfeito, do qual o guerreiro pode em certa medida partilhar e vivenciar neste mundo.

Em oposição ao Sol do Grande Leste, encontramos a Energia do Sol Poente. Tal qual em outras tradições, representa a escuridão e a covardia. O sol poente também representa a mecanicidade e o automatismo que afetam o ser humano.

No Tibet, o guerreiro que presencia a visão do Sol do Grande Leste, vive um grau de descondicionamento e soltura inimagináveis. Essa energia autogerável chama-se “cavalo de vento”. O vento representa a irradiação do imenso poder da bondade na vida do guerreiro. Poder que pode ser cavalgado, esse é o princípio do “cavalo”. Em certo sentido, o cavalo nunca chega a ser domado, a bondade nunca se torna propriedade pessoal. No entanto, a energia elevada da bondade pode ser invocada e provocada. Nos templos tibetanos, vêem-se bandeirolas flamejantes ao vento, essas bandeiras flamejantes representam o cavalo de vento. As bandeiras são agitadas pelos ventos da bondade, ou do dragão, como diriam os chineses. O guerreiro deve ser capaz de presenciar o cavalo de vento dentro de si e projetar esse estado anímico de energia superior para todos os demais.

Sempre se viu o guerreiro como sendo alguém forte e com muita energia. Essa energia, proveniente do cavalo de vento, confere confiança incondicional ao guerreiro. A palavra tibetana para confiança é ziji. Zi significa “brilho” ou “cintilação” e ji quer dizer “esplendor” ou “dignidade”, às vezes tendo também o sentido de “monolítico”. Ziji, assim, expressa a irradiação, o regozijo da dignidade.

O MUNDO SAGRADO DO GUERREIRO

A valorização do sagrado começa de um modo muito simples, com o interesse por todos os detalhes da vida. É ter consciência de tudo o que ocorre em nossa vida diária. Para uma pessoa comum, o ato de tomar café, a forma como se levanta da cama, como pega num simples copo d’água é trivial. Para um guerreiro cada instante e cada detalhe conta. O simples ato de sentar-se, que para uma pessoa comum nada significa, para um guerreiro é um limiar entre o profano e o sagrado. O guerreiro torna esse mundo especial porque sua consciência está no agora, no presente.

As percepções com que o agora brindam o guerreiro são mais profundas que o comum. Para além da percepção comum há o supersom, o supercheiro e a supersensação, existentes em nosso ser. Quando captamos a numa única percepção, o poder e a profundidade da grandeza, descobrimos que estamos invocando a magia. Em tibetano, essa qualidade mágica da existência, essa sabedoria natural chama-se drala. Dra significa “inimigo”ou “adversário” e la significa “acima”. Literalmente, portanto, drala significa “acima do inimigo”, “para além do inimigo”.

O drala (magia) é o ponto de contato entre a ordem do mundo externo e a ordem do mundo interno. Portanto, um dos pontos-chave para a descoberta do princípio de drala é perceber que nossa própria sabedoria como seres humanos não existe em separado do poder das coisas tais como elas são. Não há nenhuma separação ou dualidade entre nós e o mundo. Quando vivenciamos essas duas coisas como uma só, temos acesso a um poder imenso. Isso é a descoberta da magia.

Para “atrair”o drala, há que gerar as condições propícias.
A primeira delas é invocar o drala externo, isto é, invocar a magia em nosso ambiente físico. O modo como organizamos e cuidamos do nosso espaço é muito importante. Se é caótico e sujo, nenhum drala entrará ali. Para um guerreiro, invocar o drala externo significa criar harmonia em seu ambiente, para assim estimular a consciência e a atenção ao detalhe. Desse modo, o ambiente físico promove a disciplina da condição guerreira.
A idéia de espaço sagrado foi cultuada por inúmeras civilizações, desde os egípcios, romanos, gregos, aos índios, tuaregs e celtas. A própria catedral gótica é um exemplo de espaço sagrado. Numa catedral há algo que vai além da perfeição arquitetônica, há um brilho especial, pode-se sentir a magia que sua atmosfera particular irradia.

O drala interno está relacionado com a magia do nosso corpo. Vivenciar o drala interno significa sentir a unidade de nosso próprio corpo. Invocamos o drala interno através do relacionamento com nossos hábitos pessoais, da nossa maneira de cuidar dos detalhes, no vestir, no comer, no beber, no dormir. O drala interno se manifesta quando nos vestimos adequadamente para cada ambiente, sem automatismo ou mecanicidade. Também em nossa alimentação, no uso de nossa boca, para calar ou para falar. Tudo reflete um sentimento e uma conexão ou desconexão com o mundo. O drala secreto é o resultado da invocação dos princípios dos dralas externo e interno. Existem barreiras que devem ser superadas para dominar a fundo a invocação dos dralas. A arrogância e a vaidade cortam o elo com os dralas. Se considerarmos que o poder é nosso e que a realização é pessoal, estaremos errando o alvo. Quando não impera a amabilidade e a humildade, os dralas são repelidos.

Outro obstáculo são as tendências habituais. As tendências habituais são instintivas e promovem mais o animal no homem do que o ser-humano propriamente.
A palavra tibetana para “animal” é tudro. Tu significa “encurvado”, dro significa “andar”. Os tudros são quadrúpedes que andam encurvados. Fisicamente, aquele que vive dominado pelas tendências habituais, anda como um animal, encurvado e olhando para baixo, nunca para cima, não vê o sol nem as estrelas, não sonha e não permite que outros sonhem. É preguiçoso e tem um nível de inércia petrificante.

O mundo para o guerreiro é de caráter sagrado. Tudo no universo é potencialmente sagrado. A vivência do mundo sagrado nos denuncia como estamos entrelaçados com a riqueza e o brilho do mundo fenomenal. Somos parte natural desse mundo, o que implica numa hierarquia ou ordem natural. Nas filosofias milenares da China e do Japão, os três princípios do céu, da terra e do homem expressavam a concepção de como a vida humana e a sociedade podem se integrar à ordem do mundo natural. Esses princípios baseiam-se numa antiga compreensão da hierarquia natural.

Os princípios do céu, da terra e do homem são de grande ajuda para descrever de que maneira o guerreiro deve assumir seu lugar no mundo sagrado. O céu é tradicionalmente o reino dos deuses, o mais sagrado dos espaços. O céu representa simbolicamente qualquer ideal elevado. Inspira a grandeza e a criatividade humana. No I-Ching vemos o hexagrama Chien relacionado com a idéia de criativo, céu, luminosidade. A terra, por sua vez, simboliza a receptividade. É o solo que sustenta e promove a vida. O ponto de união e de potencialização do poder universal está representado pelo homem.

Quando os seres humanos combinam a liberdade do céu com a praticidade da terra, podem viver juntos numa boa sociedade humana. Quando os seres humanos violam sua relação com o céu e a terra ou deixam de confiar neles, o resultado será o caos social e as catástrofes naturais.

Em chinês, o ideograma que designa o governante ou rei é uma linha vertical unindo três linhas horizontais, que representam o céu, a terra e o homem. Isso demonstra que o rei detém o poder de unir o céu e a terra numa boa sociedade humana.

O Homem tem um corpo de ouro por natureza, um corpo sagrado que não deve ser profanado. No Tibet, a visão dos três mundos (céu, terra e homem), expressada no corpo humano, é conhecida pelos nomes: lha, nyen e lu.
Literalmente, lha significa “divino” ou “deus”, refere-se aos pontos mais elevados da terra. É o ponto mais alto, o primeiro a captar a luz do sol nascente.
Psicologicamente representa o estar desperto, a atenção desperta. No plano corporal, lha é a cabeça, especialmente os olhos e a testa.

Nyen significa literalmente “amigo”. Nyen começa nas altas encostas das montanhas e compreende as florestas, as matas e as planícies. Na tradição dos samurais japoneses, as ombreiras engomadas do uniforme de guerreiro representam o princípio de nyen. Na tradição ocidental, as ombreiras acentuadas representam o mesmo papel. Psicologicamente está associado à solidez. Relaciona-se com a valentia e a galhardia do ser humano. No corpo humano está representado pelo ombro, peito e a caixa torácica.

Lu, por fim, significa literalmente “ser aquático”. É o reino da água, dos oceanos e grandes lagos. Lu tem o caráter de uma jóia líquida. No aspecto psicológico, a vivência de lu assemelha-se a um mergulho num lago dourado. Lu é o frescor da luz dourada do sol que se reflete num lago profundo. Em nosso corpo, lu são as pernas e os pés: tudo o que está abaixo da cintura.

Viver de acordo com a hierarquia natural não significa seguir um conjunto de regras rígidas nem estruturar os dias em função de mandamentos ou códigos de comportamentos caducos. A ordem dá equilíbrio e unidade ao conjunto. Os braços têm seu lugar, a cabeça deve estar sobre os ombros e o pescoço, as pernas têm seu lugar, e assim por diante. Essa lógica aparentemente infantil guarda um grande segredo da natureza. As coisas têm poder quando estão devidamente no lugar que a natureza lhes outorgou estar. As pernas no lugar da cabeça, ou os pés no lugar do peito não seriam só ridículos mas perderiam seu potencial. Cada coisa no seu lugar abre caminho para a força do cavalo de vento se manifestar.

De acordo aos princípios do lha, nyen, lu e da hierarquia natural, um guerreiro precisa estar com a cabeça alta, coluna ereta, ombros relaxados, peito aberto, andar possante e suavemente, respirar os problemas e olhar com a bondade e a força daquele que detém a vida e a morte em seu poder.
Para fazer a viagem da condição guerreira e presencializar esse poder é preciso ter um guia, um mestre guerreiro que ensine o caminho. Só é possível renunciar ao egoísmo quando se tem um exemplo vivo, um exemplo humano, alguém que já o tenha conseguido e portanto nos possibilite fazer o mesmo.

A cultura marcial do Tibet demonstra que não se trata de teoria, é uma trilha de coração que pode ser vivida pelo guerreiro de forma prática. Para ser guerreiro, requer-se uma disciplina impecável e uma convicção a toda prova.

Talvez a maior viagem que um guerreiro possa aprender a fazer, a trilha mais longa e tortuosa, esteja dentro de si mesmo. Uma viagem de aproximadamente trinta centímetros. Uma viagem do cérebro ao coração.

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