A cultura Marcial - Introdução

A cultura marcial não é exclusividade de nenhuma religião, cultura ou civilização em particular. Sempre esteve presente tanto no ocidente quanto no oriente no caleidoscópio de diferentes momentos históricos. Suas digitais marcaram os guerreiros espartanos, romanos, tibetanos, índios norte e sul-americanos, celtas, pré-colombianos, assim como esteve presente no ideal dos samurais, tuaregs, maoris, etc.

A cultura é um conjunto de valores, de cultivo de experiências e crenças transmitidos de geração a geração que transcendem ao tempo das sociedades humanas. A civilização nada mais é do que a plasmação dessa cultura. Para a criação da civilização, é necessário dirigentes conscientes dessa tradição, dirigentes capazes de manter vivo o elo que os une por um lado à sabedoria e por outro ao coração do homem. O princípio do guerreiro iluminado ou dirigente consciente, capaz de ser esse elo, esteve presente no rei Artur, no Davi bíblico, em Ulisses, assim como em Leônidas, Alexandre o Grande e em milhares de outros.

 

Marcial (Marte, deus da guerra romano) se refere à guerra. Para um guerreiro, a guerra é inevitável e fundamental. Através dela o guerreiro tem acesso às portas de seu templo interior. Voa como um pássaro em direção ao trono da morte, tendo em uma das asas o medo e na outra a dor. A presença constante da morte dá ao guerreiro o verdadeiro sentido da vida e do amor. Numa ocasião, um rei capturou um inimigo e disse que o mataria, este contestou dizendo que perseguira o rei por toda a sua vida e que depois de morto causaria mais problemas ainda. O rei refletiu e disse: “Se realmente você for capaz de tal façanha, quando cortar-lhe o pescoço, você ainda será capaz de morder uma pedra”. O inimigo olhou as pedras que estavam no chão ao seu redor. O rei ordenou que o decapitassem. A cabeça rolou e mordeu uma pedra com um vigor assombroso. Todos que estavam ao redor se desesperaram temendo pela vida do rei. O rei os tranqüilizou dizendo que o último pensamento do inimigo foi morder uma pedra e não matá-lo. O rei disse que um dia um sábio lhe ensinou que o último pensamento é que importa, é o que nos projeta para o outro lado. De acordo a esse ensinamento tradicional devemos ter em conta que para termos um último pensamento digno e sábio devemos viver com dignidade e sabedoria. A vida é o treinamento para a morte. Para que o pânico não nos assalte no último momento devemos treinar por toda uma vida. Cada dia de vida é um preparo para a morte. Portanto, a condição da guerra é categórica para um guerreiro.

O problema é que quando se fala da guerra surgem preconceitos descabidos, acompanhados de alienações desmedidas. Sempre houve guerra entre os homens. Desde os tempos mais remotos da história até os momentos atuais. Parece ironia que quanto mais se clame pela paz mais guerras se vêem. Na realidade, a alienação de que as guerras não deveriam existir está mais presente neste ciclo histórico do que em outros. Por exemplo, ainda que pareça impactante, Ésquilo, o Pai da Tragédia, considerado como um dos homens mais espirituais e cultos da humanidade, teve a maior honra em ser um guerreiro e um homem de paz. Lutou nas batalhas de Maratona, Salamina e Platéia. No epitáfio de Ésquilo, confeccionado por ele mesmo, liam-se as palavras: “Este monumento cobre a Ésquilo, filho de Euforião, que nascido ateniense e morto nas fecundas ranhuras de Gela. O tão afamado bosque de Maratona e o medo da longa cavalaria dirão se fui valente. Bem, eles o viram!”

A guerra é natural e por isso obviamente é vista na natureza. O coração segue sua marcha pela oposição infinita que ele protagoniza. Os planetas, os satélites, lutam constantemente por seu espaço, ora atraindo ora repelindo. O próprio ser humano é agredido por uma série de micróbios que trata que adoeça ou morra. Os glóbulos brancos são os responsáveis por essa guerra que pode levar à saúde ou à morte. Há guerra numa partida de xadrez ou de tênis, tanto quanto nas relações humanas. Quando um cavalheiro quer conquistar uma dama, isso já não implica uma luta? Uma forma de guerra? Nas religiões, se encontram mestres espirituais que lidavam com a guerra de acordo ao necessário. Não foi Jesus quem lutou e tirou a chicotadas os publicanos que profanavam o templo? Também não foi Jesus que, na Galiléia, contra os fariseus, disse que quem não estivesse com ele estaria contra ele? Krishna não estava com Arjuna sobre um carro de guerra dando instruções sobre o campo de batalha e como vencer? Certamente trata-se de símbolos, mas o ambiente bélico pairava no ar. Maomé não conduziu grandes batalhas e invasões? Buda diz-nos que o Nirvana deve ser arrebatado, ou seja, tomado de assalto. A guerra e os combates não os desmerecem, não deixarão de ser seres espirituais condutores da humanidade. A guerra e o combate nesses casos estão inseridos dentro de um contexto maior . É como um mosaico, cujo desenho todo não se vê se não se toma a distância necessária. E não é porque não se vê o todo, pela proximidade das ranhuras do mosaico, que ele não tem um sentido. A própria história tem mais a ver com guerra do que com paz. A guerra é um fato. Por fazer parte do conhecimento, não pode ser omitida. O conhecimento leva a ver o que está para além do comum, assim como a pedra do rio toma formas incríveis pela luta constante com o rio, assim como o céu aparece com matizes de cores que nem nos sonhos são possíveis, devido à guerra das partículas em choque contra a luz solar. Assim, o verdadeiro conhecimento da guerra leva a conhecer o valor da paz.

Quando a Justiça, o Bem, ou quando os princípios de uma civilização estão em jogo, surge a necessidade da guerra. Um guerreiro não luta por qualquer motivo. Quando se luta, se luta com valor, coragem e outros códigos para que ninguém se torne assassino. A célebre frase das tradições para o uso da espada era: “Não me desembainhe por qualquer motivo. Não me guarde sem honra”. Também o conhecimento das tradições que diziam que num torneio eram os deuses que escolhiam o vencedor para ser exemplo para os demais, aquele que ganhasse era porque tinha uma virtude superior, demonstra que a verdadeira guerra é interior. Um guerreiro deve ser preparado para lutar contra suas próprias sombras e medos e que dentro de seu coração estava a verdadeira vitória. Sidharta Gautama dizia que “Maior do que aquele que venceu a mil homens em batalha é aquele que vence a si mesmo”. A luta é sempre contra nós mesmos. A verdadeira concepção do guerreiro não significa entrar em guerra com os outros. A agressividade originada de nossa ignorância é a origem de nossos problemas, não a solução.

O Bhagavad-Gita, tal como outras grandes epopéias, qual a Ilíada e a Odisséia de Homero, e todas as demais obras imortais, tem por objetivo revelar ao homem o verdadeiro sentido da vida. A virtude esteve sempre vinculada ao espírito da luta ou ao ideal sagrado da guerra. Só a virtude, com sua luz cintilante, pode iluminar os mais obscuros e recônditos rincões da personalidade. Se a luz vence, não há espaço para a escuridão, para os defeitos, limitações e impurezas. Por isso, os pré-colombianos, através do rito da “guerra florida” afirmavam: “Se vence a alma o corpo floresce”.

A paz que as pessoas reivindicam não passa de mentira, pois o preço que teria de se pagar para obtê-la implicaria a perda da honra, da dignidade e dos valores morais. Para prevalecer a justiça, o bem, a dignidade e a honra, se faz necessário que o indivíduo seja justo, digno, bondoso e honrado. Aí reside a guerra sagrada. A vida deve ser conquistada. A paz vem depois da guerra interior. A paz guerreira é a verdadeira paz para o guerreiro.

Como já foi visto, a cultura marcial se manifestou em diferentes povos, lugares e épocas. Essencialmente falam dos mesmos valores, códigos de honra, virtudes e de uma sabedoria capaz de resolver os problemas do mundo. No entanto, as nuances e as diferenças são tão ricas e impressionantes que facilmente aqueceriam o coração de qualquer guerreiro.

Algo do que será relatado parecerá forte e agressivo. Na realidade, é perfeitamente compreensível desde que esteja no contexto correto. Mesmo assim, para além do contexto, certas realidades só podem ser concebidas por quem tem natureza de guerreiro. Quem não o é, não deve se atrever a querer viver sequer um segundo como tal. Um lobo não deve querer ser uma águia, assim como uma ovelha não deve querer ser uma raposa. Cada um tem sua natureza própria. Um lobo não entenderia a realidade da águia, assim como uma ovelha não compreenderia as necessidades da raposa. A cultura marcial cria ressonância no interior de todo aquele que tem natureza guerreira. Ainda assim, é somente uma etapa dentro das esferas do conhecimento. A cultura marcial é prévia à filosofia das artes marciais, que por sua vez precede à magia marcial. A cultura marcial está relacionada com os códigos de honra, comportamentos, virtudes, etc. A filosofia das artes marciais está mais além e diz respeito à depuração dos conceitos. Para um guerreiro, a cultura marcial é o primeiro degrau dessa fantástica escada de luz que leva ao seio de Deus.

A alma do guerreiro é como a flor de cerejeira, que se abre para dar seu perfume antes de desfalecer por completo, sem medir o valor disso. Simplesmente se dá. Da mesma forma, este trabalho está sendo feito sem grandes pretensões nem pequenas, simplesmente está. Descobriremos assim, iluminado pelos mestres e pela alma, até onde esse perfume nos levará.

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